HISTÓRIAS: ERA UMA VEZ ...MARCAS
Artigo publicado em 29/11/2010 por: Vasco Rocha (DDB Moçambique)
Era uma vez...

Quantas vezes esta frase deu início a histórias que nos prendiam a atenção devorando cada palavra que ouvíamos, colocando a nossa mente a vaguear por um mundo de fantasia e/ou realidade, preenchendo o nosso imaginário.

Desde princesas e castelos encantados numa versão mais clássica, até super-heróis num modelo mais moderno e sofisticado, cada história provocava delírio e criava, em paralelo, a exigência da riqueza do pormenor e o cumprir de um final que alegrasse o coração.

Do racional ao emocional, ou simplesmente de um acalmar de espírito, a história era um ritual, era uma janela temporal de um mundo não real mas reconfortante para o espírito.

Qualquer criança adora ouvir uma história, devorando com prazer cada momento e cada pormenor da mesma, independentemente das vezes que já a ouviu. Ela acredita, ela vê os cavalos alados ou o Lobo Mau, simpatiza com o Capuchinho Vermelho ou canta com os Sete Anões. Aprende a detestar a bruxa malvada e a querer ser no limiar das 12 badaladas a Gata Borralheira e viajar na carruagem moldada de uma abóbora.

Histórias, ilusões ou verdades?

Histórias que actualmente ainda se contam embora, por vezes, com cores, sons e movimentos diferentes.

O tempo passa e elas, as histórias, continuam e passam a estar nas nossas mãos, em comandos cujas teclas se transformaram em complementos dos nossos membros. Desde monstros que inundam os cenários e que têm de ser abatidos pelos super-herói qual Ben 10 que se vai transformando, até relvados com variáveis temporais onde dispomos a nossa equipa de craques como queremos e onde construímos os nossos desafios e vibramos silenciosamente num mundo muito nosso, numa historia que nós próprios contamos na primeira pessoa.

Comandos que dão vida ao nosso imaginário, que dão ser e espírito a um mundo onde tudo é possível, a um mundo em que gostaríamos permanentemente de viver e onde continuamente nos desafiamos.

E se as historias contadas à cabeceira da cama, a uma mesa de uma sala ou no conforto de um sofá já não são aquelas histórias que queremos ouvir, pois reduzem-se à fronteira de uma voz com a capacidade do nosso viajar em pormenores desenhados a preto e branco por onde caminhamos para que elas nos apurem os sentidos e nos desafiem constantemente de forma a procurarmos os nossos limites?

Aqueles que não conhecemos e que raras vezes temos a possibilidade de medir.

Histórias de pessoas, coisas de mundos onde confundimos o início com o fim, a verdade com a mentira, o vulgar com o diferente, o perto com o longe ou simplesmente o real com o imaginário.

Histórias de quem, entrando numa janela, se despe num mundo desconhecido e cada vez mais sem fim, onde se fazem amigos, onde se compra, onde se namora, onde se trocam confidências, onde se estuda, onde se viaja, onde mergulhamos num mar de informação impossível de controlar e de onde nos suga todo o nosso EU. Onde cada um de nos é a história do outro, onde cada letra colocada é adicionada à definição de um perfil ou à construção de mais uma história.

Já não são histórias naturais, já não são histórias definidas por comandos, já não são histórias quaisquer, são histórias construídas em cima de todas as histórias, sobre pilares imensos de informação cruzados a velocidades enormes de números binários que circulam bem no nosso meio e que virtualizam todo o nosso sentido de realidade.

Dois simples números, o ZERO e o UM, ditam agora a construção de tudo aquilo que nos rodeia, pintam quadros reais de cenários infinitos com paletas de cores personalizadas para cada um de nós. Somos agora personagens. Já não ouvimos histórias, já não olhamos para a janela e esperamos a voz calma de alguém sapiente que nos adoça, passamos a ser personagens da nossa própria história, agora com mudanças virtuais num mundo que entendemos como real e que roda a uma velocidade que nos estonteia, que nos inebria mas que ao mesmo tempo nos desvirtua.

Sim, somos personagens de um novo mundo, de uma história sem início e que todos os dias muda o fim pois não o vê, todos os dias muda de cor pois já não há limites nos pantones, todos os dias acrescenta valor.

Neste novo mundo, sendo personagens, que história devemos contar, escrever ou simplesmente participar?
Simples, ousada, verdadeira, imaginada, qual o sentido que queremos dar a um novo mundo onde eu posso ser outro e o outro pode ser qualquer coisa. Onde o meu perfil pode ser simplesmente aquilo que o outro quer, onde a dimensão do meu espaço passa a ser o somatório de todos num universo sem limites.

Que história vamos contar? De que forma vamos apreciar a realidade ou a verdade? Como vamos medir a franqueza? Como saberemos a nossa idade? O que nos vai distinguir?
Histórias de verdade ou a verdade das histórias será o nosso dia-a-dia vivendo sempre a questão de ser ou não ser.

Simplesmente, apagamos o passado pelo presente, deixamos de nos lembrar de tudo aquilo que nos marcava de uma forma simples e directa.

Marcas que conviviam de uma forma real e que preenchiam o nosso espaço com a sua personalidade. Marcas que viviam o nosso dia-a-dia, obrigando-nos a crescer todos os dias. Marcas que impunham a sua presença. Marcas de um tempo em compasso cada vez mais acelerado que nos atordoava.

Marcas que muitas vezes nos desrespeitaram, quebraram a nossa relação ou desapareceram para sempre das nossas vidas. Marcas que criaram histórias de vida. Marcas cujas marcas simplesmente não desaparecem pois intrinsecamente são nossas e vivem bem dentro de nós.

Agora, como se relacionarão essas marcas connosco? De que forma a sua personalidade nos irá afectar? Que histórias irão elas nos contar? Que tempo estarão elas connosco?

Serão histórias diferentes?

Era uma vez…


 
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